sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

INVERSÃO DE VALORES (II)

Depois de uma angustiosa divisão ocorrida em uma determinada comunidade, um pastor de certa igreja evangélica procurou o ministro da referida comunidade, e, no sentido de recomendação, pediu-lhe que concedesse a bênção precisamente ao obreiro que tinha promovido a divisão, para que este e os irmãos que o acompanhavam fossem recebidos em sua igreja.

Em um primeiro momento, ele ficou incomodado com aquela situação, uma vez que, desconhecendo os fatos, aquele pastor não devia ter feito tal pedido.

Na verdade, se os conhecesse em profundidade, nunca o teria feito.

Visto que, em desacordo com a Bíblia, aquele obreiro fora protagonista de uma cizânia cometida contra uma comunidade cristã, tendo literalmente rasgado o corpo de Cristo.

Em sã consciência, jamais alguém poderia recomendá-lo a outra igreja que também faz parte do Reino de Deus.

A seriedade, o caráter e a honradez fazem parte imprescindivelmente do ministério evangélico.

É preciso resgatar o conceito bíblico de que não só deve o obreiro do Reino se tornar modelo para o rebanho (1Pe 5.3), como também deve dar bom testemunho, assim para os cristãos, como para os que estão de fora (1Tm 3.7).

Lembre-se, no entanto, de que um pastor insubmisso, que tenha passado por cima da Palavra, lesionando o corpo de Cristo, não poderia ter um ministério próprio, normal, nem conviver no meio evangélico como se nada tivesse acontecido, sem que os danos perpetrados venham a ser inteiramente reparados.

É grave erro pensarmos que o pastor é servidor estrito da sua denominação.

Afora o fato de servi-la no sentido administrativo, acima disso, ele é servo de Deus.

O pastor batista não é servo da igreja Batista, nem o assembleiano, da Assembléia de Deus, nem o metodista, da Metodista.

Como parte do corpo de Cristo, ele é servo de Deus, a serviço do seu Reino.

Portanto, a Deus e à Palavra deve prestar contas.

Assim, o obreiro descontinuado de determinada igreja não terá sido desligado somente daquele ministério local.

Na verdade, terá sido desligado do serviço do Reino de Deus.

E se ele não se arrepender para ser restaurado continuará desligado, ainda que venha a se integrar a outro ministério.

Ignorando a ética, muitas igrejas admitem pastores excluídos de outros ministérios, sem ao menos consultar a igreja de origem, para saber os motivos do desligamento.

Outras acham que o pastor faltoso só não serve para a sua própria comunidade.

Caso, porém, queira servir em outra, o problema é da igreja que o receber.

O ministério que pensa assim, lamento concluir, está agindo contra o Reino de Deus.

Se as igrejas evangélicas constituem ministérios de Deus, o pastor que, por sua integridade, é apto para servir ao Reino, em uma delas, também é apto para servi-lo em qualquer outra.

Logo, o pastor que, por algum mau comportamento, não serve para alguma dessas igrejas, também não serve para nenhuma outra.

A obra de Deus é única e permanece a mesma em todo lugar, razão pela qual não temos o direito nem de receber, nem de recomendar o obreiro insurgente.

Se o recebermos, não só estaremos ferindo a ética cristã, como também nos tornaremos coniventes com o pecado da indisciplina.

Se, em contrapartida, o recomendarmos, estaremos cometendo traição, já que o outro ministério também faz parte do Reino de Deus.

Somos do Reino para servi-lo em todos os aspectos, devendo preservá-lo, tanto em nossa denominação quanto em qualquer outra.

Está claro, portanto, que se algum ministro de Deus, tendo passado por cima da Bíblia, vier a pecar contra a igreja local, a partícula da Universal Igreja de Cristo, caso não se arrependa, e não conserte o erro, esse ministro terá perdido terminantemente a autoridade para expor, pregar ou ensinar a Palavra de Deus nessa ou em qualquer outra igreja, onde quer que seja, até mesmo do outro lado do mundo, uma vez que a obra é de Deus, e Deus é onipresente.

Nenhum ministro neste mundo, nem o mais puro, nem o mais fiel, nem o mais dotado de dons espirituais, poderia mudar o rumo daquele que se colocou em rota de colisão com a Palavra de Deus.

Se existe alguém que pode fazê-lo, esse alguém será o próprio transgressor, caso, é claro, se arrependa e se corrija.

Não é pecado cair quando se quer levantar

Talvez seja difícil recuperar o pastor rebelde, porque sempre será apoiado por alguém, seja por aqueles que o acompanham na cisão, seja por outros pastores, que às vezes agem assim por interesse próprio.

Mas não sabem o grande mal que lhe estarão fazendo, uma vez que só farão alimentar o seu ego, fazendo-o crer que o erro da insubordinação não é tão grave assim, e que rebelião não é pecado.

Não é?

Veja o que diz a Palavra: “Tem, porventura, o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra?

Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura de carneiros.

Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria...” (1Sm 15.22, 23).

Segundo a Bíblia, os obreiros cristãos que se tornarem infiéis ao propósito do Reino de Deus, transgredindo a Palavra, estarão sujeitos à disciplina eclesiástica, seja na esfera da igreja local, regional, nacional ou internacional.

Primeiro deverão ser argüidos para que reconheçam o erro, arrependam-se e sejam restaurados.

Caso, porém, não se arrependam, tornando-se insubmissos, recusando-se à disciplina, devem ser desligados da comunidade, e por conseqüência, do serviço do Reino de Deus, conforme prescreve a Palavra em Apocalipse 2.5.

Criou-se a idéia em boa parte dos cristãos de que se o pastor não cair em pecado de imoralidade, está tudo bem.

Quando uma notícia corre, anunciando a queda de algum pastor, a primeira pergunta é:

Foi adultério?

Ou então fazem questão de ressaltar: Não foi adultério!

Para esses cristãos, o pastor só não deve adulterar.

Na verdade, isso é um desastroso engano.

A maioria dos pastores, disciplinada ou excluída por Deus do seu Reino, foi por outros motivos.

Dos cinco pastores das sete igrejas da Ásia que fracassaram, nenhum deles foi explicitamente acusado de adultério.

O pecado do pastor de Éfeso, por exemplo, foi uma negligência que levou a igreja a perder o primeiro amor, isto é, o amor a Cristo.

No entanto, foi um pecado de tamanha gravidade, que o Senhor o advertiu duramente para que se arrependesse.

Caso contrário, seria excluído do Reino de Deus.

O mal, no entanto, não é tropeçar e cair.

É permanecer no chão.

De acordo com o índice de fracasso dos pastores da Ásia, mais de 70% dos atuais pastores podem cair.

O que se espera, porém, é que estejam prontos a reconhecer os próprios erros e a retornar ao Caminho.

Seja do pecado de rebelião ou de outra natureza, caso o reconheça, e do qual verdadeiramente se arrependa quando a respeito vier a ser argüido, o obreiro faltoso não só estará demonstrando hombridade em reconhecer as próprias faltas, mas também estará abrindo o caminho para a própria restauração.

Recompondo-se com a igreja local e seu ministério, tanto a comunidade atingida o perdoará, como ainda aqueles que o acompanharam na rebelião não serão enganados a respeito dos fatos, e não estarão sendo conduzidos por um pastor que, tendo transgredido a Palavra, terá perdido a autoridade para ministrá-la.

Nenhum pastor deve recusar a autoridade da Igreja de Cristo, contra a qual nem as portas do inferno prevalecerão (Mt 16.18).

A tal respeito, a Bíblia faz uma dura advertência: “... E, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano.

Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra terá sido ligado nos céus, e tudo o que desligardes na terra terá sido desligado nos céus” (Mt 18.17, 18).

Quer isso dizer que se o obreiro faltoso recusar a disciplina poderá ser desligado do Reino de Deus.

Existem muitos pastores caídos tanto em adultério quanto em outros erros os quais ainda continuam em seus cargos, porque o ministério a que pertencem não tem autoridade moral para discipliná-los.

Como também, existem outros que, tendo já perdido sua autoridade ministerial, por terem sido indisciplinados, ainda estão atuando em algum ministério, ou em igrejas que eles mesmos fundaram, como se nada tivesse acontecido.

Aos cinco pastores da Ásia que fracassaram, Jesus insistiu que se arrependessem, pois do contrário seriam removidos do Reino de Deus, e perderiam toda a autoridade ministerial.

“Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te... senão, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro...” (Ap 2.5).

A expressão mover o candeeiro significa que, se o pastor pecar, permanecendo no erro, e não se arrepender, a sua utilidade como anjo da igreja será removida, tornando-se a própria igreja inoperante no Reino de Deus.

Tal é a responsabilidade do pastor.

Diz-nos a Bíblia que determinado ministro deliberadamente resolvera promover um cisma nas igrejas cretenses, onde Tito era bispo e supervisor.

Por isso, em sua carta, Paulo disse: “Evita o homem faccioso, depois de admoestá-lo primeira e segunda vez, pois sabes que tal pessoa está pervertida e vive pecando, e por si mesma está condenada” (Tt 3.10, 11).


Quem poderia perdoar ao pastor rebelde?

Afinal, em que circunstância e a quem compete perdoar ao pastor rebelde?

Segundo a lei do amor e do perdão, devemos ter a graça de não odiar a ninguém, e de perdoar a todos.

Logo, supõe-se que também devamos perdoar ao obreiro divergente.

Ora, não nos compete perdoá-lo, a menos que suas ofensas nos tenham sido dirigidas pessoalmente.

Não há como ofender alguém e esperar o perdão de outrem.

Como ainda não se pode perdoar alguém por ofensas cometidas a outrem.

Embora atinja também a Igreja de Cristo, o pecado do obreiro insubmisso é praticado contra Deus, porque, desobedecendo à Palavra, ele se comporta contrário à autoridade eclesiástica.

Ele atinge a Igreja, porque se rebelando contra sua autoridade, em desacordo com a Palavra, promove uma divisão no corpo de Cristo.

O pecado do obreiro insurgente, na verdade, é praticado contra Deus, pois é configurado na desobediência à sua Palavra.

“Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma coisa e que não haja entre vós divisões...” (1Co 1.10-13).

Se alguém recusar a autoridade da Igreja, opondo-se à Palavra, será passível de disciplina e até de desligamento do Reino de Deus.

No entanto, o reparo de qualquer estrago deve ser feito in loco, ou seja, no lugar onde ocorreu.

Embora o pecado tenha sido praticado contra Deus, por transgressão à sua Palavra, tendo atingido a comunidade por meio de uma cisão, a Igreja deve participar do acordo, tanto para que ela consinta na reconciliação, quanto para que os danos sofridos sejam reparados na presença da maioria dos membros.

Não há como pecar contra uma comunidade e ser restaurado em outra.

Simei, por exemplo, pecou contra o rei Davi, quando este fugiu de Jerusalém por causa de Absalão.

Mas quando regressou, Simei também voltou para encontrar-se com o rei junto ao rio Jordão, onde, na presença de toda a comitiva, reconheceu o seu erro, e foi o primeiro a pedir o perdão a Davi (2Sm 19.16-23).

Diz ainda a Palavra que os pecados dos quais o transgressor deve se arrepender terão de ser especificados.

Significa que os pecados cometidos são os que devem ser confessados e deixados.

Não há como cometer um pecado e confessar outro.

À medida que se generaliza a confissão, também se esconde a transgressão. “Será, pois que, sendo culpado em uma destas coisas, confessará aquilo em que pecou” (Lv 5.5).

Note-se, porém, que ninguém neste mundo, nem a Igreja, nem Deus poderia perdoar algum obreiro faltoso, se ele não reconhecer o erro, e não se arrepender, e não buscar o perdão.

“O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia” (Pv 28.13).

Ao obreiro faltoso que se converter dos seus maus caminhos, o Senhor ouvirá dos céus, perdoará os seus pecados e sarará a sua terra (2Cr 7.14).

Assim, tendo sido restaurado o ministro insurreto, os rios de água viva poderão fluir para fertilizar o solo espiritual da Igreja de Cristo e vivificar toda a comunidade.

Pedro Liasch Filho

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